CONSIDERAÇÕES INICIAIS
São muitos os exemplos de célebres livros que, pelas mãos de diretores e produtores nem tão célebres assim, acabaram por se tornar roteiros adaptados no cinema que geraram uma grande frustração para os fãs mais assíduos, e até mesmo para o grande público num geral. E a lista é extensa.
Porém, há um exemplo a ser tratado de um caso específico em que o próprio escritor - aclamado pela forma com que lapida suas personagens e as constrói a partir de memórias e acontecimentos passados, praticamente sem conexão, mas que definem toda a sua trajetória e carregam de verossimilhança as ações das personagens – disse na estréia e reafirmou até mesmo em sua última entrevista que não enxergava sua obra literária naquele filme, tampouco o fato daquele ser um bom filme, além de uma espetacularização visual.
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| (O Iluminado, 1977) |
Falamos aqui de Stephen King. Escritor norte americano que se dedica ao gênero do terror e ficção, nono colocado na lista de autores mais traduzidos do mundo, conta com dezenas de obras adaptadas ao cinema, como Carrie (1976), Conta Comigo (1986), O Apanhador de Sonhos (2003), O Nevoeiro (2007), diz ter rompido sua relação com o diretor Stanley Kubrick durante as gravações do filme O Iluminado, filmado em 1980. O escritor não acreditava nos métodos de Kubrick, que o ligava incessantemente às madrugadas para questões pessoais como Deus e política, nem nas alterações que fizera em seu livro, tornando-o um “surto visual”.
O filme sofreu inúmeras e potentes críticas devido a sua infidedignidade para com a obra de King, caindo assim no limbo das locadoras, e lá permanecendo por muito tempo. Porém, há não muito tempo atrás, o filme foi ganhando espaço no meio artístico visual e adquirindo cada vez mais o selo de cinema cult, até hoje ser visto como uma obra consagrada de um grande diretor que tem em sua assinatura o experimentalismo extremo.
Mas será que o filme de Kubrick atingiu de fato o mesmo patamar da obra literária de Stephen King? Teria O Iluminado apenas seguido o movimento da carreira do diretor e ascendido se apoiando em seus demais filmes e em seu caráter excêntrico?
Stanley Kubrick, cineasta, roteirista, fotografo e produtor norte americano, ganhador de cinco prêmios Oscar, produziu e lançou seu primeiro longa metragem aos 25 anos e dirigiu um total de treze filmes até sua morte, em 1999. Filmes com cenas que nos marcam para sempre, seja pelo romance e sensualidade (Lolita, 1962), pela aversão ao nosso próprio reflexo futuro (A Laranja Mecânica, 1971), ou por um panorama geral da civilização humana, do momento em que nos distinguimos do meio natural até a nossa superação pelas máquinas (2001: Uma Odisséia no Espaço, 1969). O que lhe movia era a experimentação – como dito lá em cima – as tomadas sem pressa geram filmes longos que parecem não ter a preocupação em se “gastar rolo de filme”, fotografias e enquadramentos que às vezes nos dizem mais que o próprio diálogo e nos colocam ali, dentro da cena, observando como intrusos.
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| (O Iluminado) |
E não seria diferente, nem menos intenso, em O Iluminado. Kubrick sempre assumiu ser um grande fã do trabalho de Stephen King, sendo assim, como criador e criatura, Stanley Kubrick tem sim algum direito sobre a história da família Torrence, como nós temos o direito de zangar quando a continuação de nossa série favorita começa a afundar...
Nesse sentido, ambas as obras, filme e livro, representam pontos de vista diferentes da mesma história, uma com o narrador distante, que conhece as personagens melhor que elas mesmas, e outra onde nos encontramos perdidos dentro do enredo e tudo – ou nada – é esperado.
ASSIMILANDO DIFERENÇAS
A história trata de Wendy, Jack e Danny, a família Torrence, que segue um padrão de vida simples após Jack, o pai, perder seu emprego como professor universitário após uma cena violenta que se envolve com um aluno e frustrar-se cada vez mais com seu sonho de ser escritor, além de lutar incessantemente contra seu vício em bebida. Wendy, sua esposa, é no presente momento submissa ao marido – sem nunca deixar de amá-lo - e ali passa a refletir sobre como idealizara a o casamento e os rumos que sua vida havia tomado. Wendy dedica todo seu tempo a casa e ao filho do casal Danny, uma criança solitária, visivelmente carente e ao mesmo tempo traumatizada pela figura paterna devido à agressividade de Jack, que num passado não muito distante, fere gravemente a criança, deixando para sempre uma fissura entre a família, afastando-o de Wendy e Danny. Tais explicações parecem cruciais para o entendimento da história, porém elas – e muitas outras – se dão apenas no livro de Stephen King.
Livro e filme se juntam pela primeira vez depois de muitas páginas já folheadas da obra literária e é no momento em que Jack Torrence é contratado para passar uma temporada no Hotel Overlook, e está ai a maior diferença entre as obras, o papel do hotel na trama, como um personagem que afeta diretamente as personagens ou como simples plano de fundo para os tormentos e frustrações materializarem-se em ações horríveis dentro da própria família.
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| (O Iluminado) |
A cena inicial do filme retrata sem pressa alguma a família Torrence de mudança para o Overlook, onde Jack consegue um emprego de zelador do hotel que se encontra fechado durante alguns meses do ano devido à neve. Assim, Wendy vê nesse momento uma espécie de aproximação para a família, um bom lugar para Danny – e seu amigo imaginário Tony – e Jack como uma possibilidade para voltar a escrever. Neste hotel, um crime terrível havia acontecido. Sangue. Assassinado. Bebida. Festas no saguão. A partir daí, com as três personagens isoladas, é que são dadas as principais diferenças visuais e no roteiro, e que fizeram King abandonar totalmente o projeto e Kubrick levá-lo totalmente a sua maneira.
O desenrolar da história perpassa um tal quarto 237, que não deve ser aberto, como se algo de muito ruim lá se escondesse. Durante os passeios de Danny de triciclo pelos amplos corredores do Overlook é que essas entidades paranormais começam a se manifestar, e a presença de Tony, seu amigo imaginário, tornam-se cada vez mais freqüentes e assustadoras para a criança. Danny assim é um “iluminado”, alguém que pode sentir os sinais deixados nos lugares tempos atrás, tornando-o o mais sóbrio sobre aquilo que se passa no hotel. As cenas envolvendo Danny são extremamente chocantes, envolvendo crianças mortas e corredeiras de sangue, diferente da sutileza de Stephen King, que coloca apenas alguns sinais a serem investigados em conjunto com o passado de cada personagem.
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| (O Iluminado) |
A sanidade de Jack também é escrachada nas cenas de Kubrick, onde até mesmo um labirinto é construído no Overlook, cenário crucial para o andamento do filme, mas que simplesmente não existe no livro. Stanley Kubrick fez questão ainda de alterar a cor do fusca dirigido por Jack, de vermelho para amarelo, a bebida servida no hotel, antes Martine e no filme Whisky Bourbon, além da importância da máquina de escrever, como se este fosse um objeto vivo com que Jack compartilha sua queda rumo a completa insanidade. As diferenças não param por ai, mas são diferentes de outras histórias adaptadas ao cinema em que simplesmente fazem-se cortes nas cenas presentes no livro para que o tempo se encurte. Não. Kubrick nos dá a sua imaginação sobre a obra de King, ele busca analisar outros fatos, o desenrolar de traumas passados.
Nos minutos e páginas finais é que a entidade do Hotel Overlook se manifesta, onde no livro de Stephen King, ele é o próprio vilão da história, um lugar aterrorizante que amaldiçoa qualquer pessoa que o habite, fazendo que cometa atos horríveis - como matar entes da própria família - e manifestar-se no corpo das personagens que tomam consciência daquilo que ali se passa. Para Kubrick, o filme apresenta um drama muito realista, onde família frustrada, com um pai atormentado que lentamente se afunda em sua loucura, que vê fantasmas e justifica suas ações de forma fria e calculista, e sua esposa, violentada, pacificada pelos anos de casamento, cansada de sua estagnação. Ai o hotel desempenha simples papel de ambiente que desperta essa loucura. É por essa diferença de ponto de vista entre os autores que, no livro, o Hotel Overlook é queimado e destruído para que não ofereça nenhum mal, ao contrário do filme, onde o mal termina com a morte de Jack Torrence.
Sendo assim, esperamos que esta breve análise não sirva de base para cinéfilos e leitores assíduos, pois leituras muito mais profundas ainda podem ser extraídas do livro e do filme, mas que toque aqueles que assistiram ou leram apenas uma das obras para que sintam interesse em ter uma visão mais ampla desta incrível e aterrorizante história além de se aprofundar sobre o trabalho destes dois grandes artistas.
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| (O Iluminado) |
Mas e você, é King ou Kubrick?
Não tenha medo do escuro...





